sexta-feira, 15 de maio de 2009


Autopsicografia

Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

domingo, 10 de maio de 2009


Para todas as mulheres-mães:

Com licença poética

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Memórias do processo de alfabetização


Olá amigos, todos nós temos exemplos na nossa história de aprendizagem de pessoas que nos marcaram profundamente, "professores" que nos fizeram gostar de suas disciplinas, e assim tivéssemos facilidade em aprender. Se escolhemos a profissão de educador, isso não foi por acaso, o nosso vínculo com a aprendizagem foi muito mais positivo do que negativo. Escrevi a crônica quando participei do PROFA (Programa de Formação de Professores Alfabetizadores), foi um dos muitos momentos significativos do curso, quantos traumas, medos, belezas, risos emergiram de nossas lembraças? Esta é uma das muitas lembranças de uma doce fase da minha vida. Abraços afetuosos!!!!


Memória do processo de alfabetização

Sempre acreditei que a curiosidade é o que move o mundo; a alfabetização, não sei de fato, parte (se é que existe parte nesse todo) dela, desta virtude humana, a curiosidade.
Minha família soube como nunca e sutilmente utilizá-la, fui alfabetizada em casa, ouvido meu pai ler cordel, histórias fascinantes e musicadas, sempre à noite quando não chegava muito cansado da labuta. Agora ainda posso recordar o título: Josafá e Marieta seria um Romeu e Julieta em versão popular. E vendo minha irmã escrever em seu delicado e atraente diário.
Acredito que foi aí, justamente nestes momentos freqüentes e informais que comecei a ser alfabetizada, através da curiosidade banhada pelas rimas do cordel e pelo desejo de conhecer a vida pessoal, ou seria... histórias secretas dos outros, (assim fica melhor , o que o leitor não poderia pensar?).
Algum tempo depois, comecei a freqüentar a escola da Pró Estela, essas escolas de fundo de quintal em que depósito vira sala de aula, em que grãos de milhos eram usados nos castigos e existia a Chiquinha, palmatória, a auxiliar da professora.
Nessa época já sabia ler, porém fui obrigada, o que me deixou contente na ocasião, talvez pela inocência da idade, a seguir à risca as lições da cartilha e também a soletrar igualzinho, igualzinho mesmo como a professora. Na palavra balão, por exemplo, o til era soletrado para obter a palavra e assim aquelas tardes tinha um que de rãtiliã=rã, balãotilião=balão.
E foi assim, entre um choro aqui, o medo de ir a escola e as dores de barriga que inventava que conclui a cartilha e graças a Deus a curiosidade resistiu.